A conta de 400 kWh que custava R$ 340 por mês não vai a zero depois da instalação solar. Vai para algo em torno de R$ 70, e a diferença entre esses dois números é o que define se o investimento se paga em cinco anos ou em sete. Três componentes explicam o resíduo: o custo mínimo de disponibilidade, a taxa de iluminação pública e o Fio B, que em 2026 está em 60% e continua subindo.
Este guia mostra a conta com esses três itens dentro, a geração esperada por região do país e o que a Lei 14.300 mudou de fato no retorno do investimento.
A conta que a maioria das simulações não faz
O cálculo do payback é simples na forma:
Payback (anos) = Custo do sistema ÷ Economia anual
A dificuldade está em estimar a economia anual, porque ela não é o valor inteiro da conta atual. Vamos a um caso completo.
Cenário
| Parâmetro | Valor |
|---|---|
| Consumo mensal | 400 kWh |
| Tarifa cheia | R$ 0,85/kWh |
| Conta atual | R$ 340/mês |
| Sistema | 3 kWp, R$ 18.000 instalado |
| Geração estimada | 360 kWh/mês (120 kWh por kWp) |
| Ligação | Monofásica, mínimo de 30 kWh |
Onde a energia vai
Da geração de 360 kWh, uma parte é consumida no mesmo instante em que é produzida, e o resto vai para a rede. Essa divisão se chama simultaneidade e importa porque o Fio B só incide sobre o que é injetado.
Em uma residência sem baterias, a simultaneidade típica fica em torno de 30%, já que o pico de geração é ao meio-dia e o pico de consumo é à noite.
- Consumo simultâneo: 360 × 30% = 108 kWh, que evitam a tarifa cheia sem pagar Fio B
- Injetado na rede: 252 kWh, que voltam como crédito e pagam Fio B
A conta depois da instalação
| Item | Cálculo | Valor |
|---|---|---|
| Energia faturada | 400 − 108 − 252 = 40 kWh × R$ 0,85 | R$ 34,00 |
| Fio B (60% em 2026) | 252 kWh × R$ 0,09 | R$ 22,68 |
| Iluminação pública (CIP) | varia por município | R$ 15,00 |
| Total | R$ 71,68 |
Economia mensal: 340 − 71,68 = R$ 268,32, ou cerca de 79% da conta original.
Economia anual: R$ 3.220
Payback: 18.000 ÷ 3.220 = 5,6 anos
Uma simulação que ignora o Fio B, o mínimo e a CIP chegaria a R$ 306 de economia e payback de 4,9 anos. A diferença de oito meses vem inteira desses três itens, e ela cresce com o tempo, porque o Fio B sobe. Para rodar a conta com os dados da sua fatura e com orçamentos reais, use a calculadora de energia solar.
O que a Lei 14.300 mudou de verdade
Aqui está o ponto mais mal explicado do assunto, inclusive em material de venda de instaladoras.
Antes de 2023, cada kWh injetado na rede abatia integralmente um kWh consumido. Era o net metering puro. A Lei nº 14.300/2022, o Marco Legal da Geração Distribuída, encerrou esse modelo para novos sistemas e instituiu a cobrança progressiva do Fio B, a parcela da TUSD que remunera a infraestrutura da distribuidora.
| Ano | % do Fio B cobrado |
|---|---|
| 2023 | 15% |
| 2024 | 30% |
| 2025 | 45% |
| 2026 | 60% |
| 2027 | 75% |
| 2028 | 90% |
| 2029 em diante | 100%, ou a regra que a ANEEL definir |
Três esclarecimentos importam para não errar a conta.
O direito adquirido tem data de corte, não prazo de instalação. Sistemas homologados até 6 de janeiro de 2023 mantêm net metering puro, sem Fio B, até 2045. Quem instala depois entra no cronograma acima. Circula muito a versão de que basta instalar até 2045 para ficar isento; não é o caso.
O percentual incide só sobre o Fio B, não sobre a tarifa. Essa é a confusão que mais assusta quem lê sobre o assunto. Pagar 60% do Fio B em 2026 significa ceder algo entre R$ 0,07 e R$ 0,12 por kWh compensado, conforme a distribuidora, contra um kWh que custa R$ 0,85 ou mais na tarifa cheia. É um custo real, mas está longe de anular a economia.
A cobrança não alcança o autoconsumo simultâneo. Energia gerada e usada no mesmo momento não passa pela rede e não paga Fio B. Por isso aumentar a simultaneidade, deslocando consumo para o horário de sol ou instalando bateria, reduz diretamente essa conta.
Como o Fio B crescente afeta um sistema instalado hoje
Um sistema homologado em 2026 não fica congelado nos 60%. Ele acompanha o cronograma. No mesmo cenário do exemplo, com Fio B a R$ 0,15 por kWh compensado a partir de 2029:
- Fio B em 2026, a 60%: R$ 22,68/mês
- Fio B a partir de 2029, a 100%: R$ 37,80/mês
A economia mensal cai de R$ 268 para cerca de R$ 253, uma redução de 5,6%. Ao mesmo tempo, a tarifa de energia sobe: a ANEEL projetou reajuste médio de 8,6% para 2026. Os dois movimentos se compensam parcialmente, e é por isso que o payback residencial segue na faixa de cinco a sete anos na maior parte do país, em vez de despencar.
Geração esperada por região
A mesma potência instalada produz quantidades bem diferentes conforme a irradiação local. Esta é a variável que nenhuma calculadora genérica acerta sem saber onde você está.
| Região | Geração mensal por kWp | Sistema de 3 kWp |
|---|---|---|
| Nordeste (sertão) | 130 a 145 kWh | 390 a 435 kWh |
| Centro-Oeste | 120 a 135 kWh | 360 a 405 kWh |
| Sudeste (interior) | 115 a 130 kWh | 345 a 390 kWh |
| Norte | 110 a 125 kWh | 330 a 375 kWh |
| Sudeste (litoral) | 105 a 120 kWh | 315 a 360 kWh |
| Sul | 100 a 120 kWh | 300 a 360 kWh |
São faixas aproximadas, já com as perdas do sistema embutidas. Dentro da mesma cidade, a orientação e a inclinação do telhado mudam o resultado: no Brasil, a face norte é a mais produtiva, e a inclinação ideal se aproxima da latitude do local. Telhado voltado para o sul pode perder de 15% a 25% de geração.
Consequência prática: um sistema que zera a conta em Teresina pode cobrir 75% dela em Porto Alegre. Dimensionar pela média nacional é o caminho mais comum para frustração.
Custo por kWp instalado
| Porte | Faixa de custo |
|---|---|
| Residencial, 2 a 5 kWp | R$ 5.500 a R$ 7.000 por kWp |
| Comercial, 10 a 50 kWp | R$ 4.000 a R$ 6.000 por kWp |
| Usina, acima de 100 kWp | R$ 3.000 a R$ 4.500 por kWp |
Um sistema residencial de 3 kWp, adequado para contas entre R$ 300 e R$ 450 por mês, sai entre R$ 16.000 e R$ 21.000 instalado, incluindo módulos, inversor, estrutura, proteções e mão de obra. Valores muito abaixo dessa faixa normalmente indicam corte em algum item, geralmente no inversor ou no projeto elétrico.
Ao comparar orçamentos, verifique se estão inclusos o projeto e a solicitação de acesso junto à distribuidora, a estrutura adequada ao seu tipo de telhado, o string box com dispositivos de proteção e a ART do responsável técnico.
On-grid, off-grid e híbrido
O sistema on-grid é o padrão residencial: sem baterias, conectado à rede, usa a distribuidora como se fosse o armazenamento. Menor custo inicial e melhor retorno financeiro, mas não funciona durante queda de energia, porque o inversor desliga por segurança.
O off-grid tem banco de baterias e nenhuma conexão com a rede. Faz sentido onde não há rede disponível. O custo por kWh armazenado é de duas a quatro vezes maior, e as baterias de lítio precisam de reposição por volta de dez anos.
O híbrido combina os dois: conectado à rede, com bateria de backup. Além de cobrir blecautes, ele aumenta a simultaneidade, porque permite consumir à noite a energia gerada de dia sem passar pela rede. Com o Fio B em trajetória de alta, essa característica deixou de ser só conveniência e passou a ter efeito no cálculo financeiro.
Financiamento: comparar parcela com economia
Com financiamento, a pergunta muda. Em vez do payback, compare a parcela mensal com a economia mensal.
No exemplo acima, a economia é de R$ 268 por mês. Um financiamento de R$ 18.000 em 60 meses a 1,8% ao mês gera parcela em torno de R$ 470, acima da economia, o que significa desembolso líquido durante o contrato. Em 84 meses a mesma taxa produz parcela próxima de R$ 390, ainda acima. A parcela só fica abaixo da economia em prazos longos ou taxas bastante menores.
A ideia de que o sistema se paga sozinho desde o primeiro mês depende de taxa baixa, prazo longo e conta de luz alta. Vale o cálculo, não a promessa. Use o simulador de empréstimo para achar a parcela do seu caso e compare com a economia estimada.
As linhas mais usadas são o crédito consignado, quando disponível, o financiamento oferecido pela própria instaladora, normalmente entre 1,5% e 2,5% ao mês, e as linhas de bancos com recursos do BNDES, que exigem enquadramento e costumam ter taxa menor. Confirme o custo efetivo total, e não apenas a taxa nominal.
Vida útil, manutenção e o que sai do resultado
| Componente | Vida útil | Observação |
|---|---|---|
| Módulos | 25 a 30 anos | Degradação de 0,3% a 0,5% ao ano; garantia usual de 80% a 87% da potência em 25 anos |
| Inversor | 10 a 15 anos | Reposição de R$ 3.000 a R$ 8.000 em sistema residencial |
| Estrutura | 25 anos ou mais | Alumínio e aço inox; verificar fixação após temporais |
| Limpeza | Duas vezes ao ano | R$ 200 a R$ 400 por visita; mais frequente em áreas de poeira |
Sobre o retorno acumulado em 25 anos: com economia inicial de R$ 3.220 ao ano e reajustes tarifários, o valor nominal acumulado fica na casa de R$ 100.000 a R$ 150.000 para um consumo médio residencial. É um número nominal, não corrigido pela inflação, e dele precisam sair a troca do inversor, a manutenção, a degradação dos módulos e a escalada do Fio B. Projeções que apresentam o bruto sem esses descontos superestimam o resultado.
Compensação de créditos: detalhes que afetam o dimensionamento
Os créditos gerados pelo excedente têm validade de 60 meses. Depois disso expiram sem uso. Isso muda a lógica do dimensionamento: superdimensionar para acumular crédito era estratégia válida antes da Lei 14.300, mas hoje gera crédito que paga Fio B e pode vencer sem ser aproveitado.
O dimensionamento adequado parte do perfil de consumo real dos últimos doze meses, não do pico. Se o consumo varia muito ao longo do ano, por ar-condicionado no verão, por exemplo, o excedente do inverno cobre o verão dentro da validade dos créditos.
Há ainda duas modalidades úteis para quem não tem telhado adequado. No autoconsumo remoto, você instala em outro imóvel de mesma titularidade e usa os créditos onde consome. Na geração compartilhada, consumidores se organizam em consórcio ou cooperativa. Ambas seguem o mesmo cronograma de Fio B.
Um ponto que varia por estado: a incidência de ICMS sobre a energia compensada não é uniforme no país. Alguns estados isentam, outros cobram, e isso altera a economia real. Confira a regra do seu estado antes de fechar a conta.
Perguntas frequentes
Ainda vale a pena instalar energia solar em 2026?
Na maior parte do país, sim, com payback residencial entre cinco e sete anos. O Fio B a 60% reduz a economia em relação ao cenário anterior a 2023, mas não a elimina: a cobrança incide apenas sobre a parcela Fio B da TUSD e apenas sobre a energia injetada na rede. O retorno depende muito da irradiação local, do valor da conta atual e do custo do sistema.
O que é o Fio B e quanto custa?
É a parcela da TUSD que remunera a infraestrutura da distribuidora, como postes, cabos e transformadores. Desde 2023 quem compensa créditos de geração distribuída paga um percentual crescente desse componente: 60% em 2026, chegando a 100% em 2029. Em valor, fica entre R$ 0,07 e R$ 0,12 por kWh compensado em 2026, conforme a distribuidora.
Quem está isento do Fio B?
Sistemas homologados até 6 de janeiro de 2023 mantêm a compensação integral, sem Fio B, até 2045. A data de corte é a da homologação, não o prazo para instalar. Quem instala depois dessa data entra no cronograma progressivo.
A conta de luz fica zerada com energia solar?
Não. Permanecem o custo mínimo de disponibilidade, que é de 30 kWh em ligação monofásica, 50 kWh em bifásica e 100 kWh em trifásica, a taxa de iluminação pública do município e o Fio B sobre a energia compensada. No exemplo deste guia, a conta de R$ 340 cai para cerca de R$ 72, não para zero.
Quanto gera um sistema de 3 kWp?
Entre 300 e 435 kWh por mês, dependendo da região. No sertão nordestino a geração por kWp chega a 145 kWh mensais; no Sul fica em torno de 100 a 120 kWh. A orientação e a inclinação do telhado também pesam: face sul pode perder de 15% a 25% em relação à face norte.
Vale a pena colocar bateria?
Depende do objetivo. Para backup em regiões com quedas frequentes de energia, resolve. Financeiramente, a bateria aumenta o autoconsumo simultâneo de cerca de 30% para 60% ou mais, e como o Fio B só incide sobre energia injetada, isso reduz a cobrança. Com o Fio B subindo até 2029, esse cálculo melhora ano a ano, mas o custo da bateria ainda precisa ser comparado com a economia que ela gera.
Por quanto tempo valem os créditos de energia?
Sessenta meses a partir da geração. Depois disso expiram. Por isso superdimensionar o sistema para acumular crédito deixou de fazer sentido: o excedente paga Fio B e pode vencer sem uso.
O que muda em 2029?
O cronograma da Lei 14.300 chega ao fim e passa a valer a regra definida pela ANEEL, que vem sendo discutida em consulta pública. Quem instala hoje precisa considerar que o Fio B do seu sistema vai subir até lá, e não permanece nos 60% de 2026.
Aviso
Os valores apresentados são estimativas para fins informativos e variam conforme distribuidora, município, estado, irradiação local e orçamento do fornecedor. Antes de investir, solicite pelo menos três orçamentos detalhados, confira a tarifa e o Fio B da sua distribuidora e verifique as regras de ICMS do seu estado.
Fontes
- Lei nº 14.300, de 6 de janeiro de 2022 — Marco Legal da Microgeração e Minigeração Distribuída.
- Agência Nacional de Energia Elétrica — ANEEL. Tarifas, TUSD e regras de compensação de energia. Portal
- Resolução Normativa ANEEL nº 1.059/2023 — regulamentação da Lei 14.300.
- Atlas Brasileiro de Energia Solar — INPE, para dados de irradiação por região.
